Dados para prever o comportamento de grupos sociais

Um único tweet ou um único telefonema podem parecer irrelevantes, mas a soma de muitos deles permite traçar relações impensáveis há apenas duas décadas.

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Na Série Fundação, Isaac Asimov introduz o termo psico-história, disciplina que faz uma mistura entre acontecimentos históricos, psicologia e estatística para prever o comportamento de grandes populações. Nos livros da série, esta ciência permite prever acontecimentos futuros protagonizados pelas massas, evitar eventos violentos e prever a barbárie.

No mundo real, os cientistas sociais sempre sonharam com aproximações mais precisas ao comportamento dos grupos humanos. Hoje, graças ao big data e a trabalhos como o de Alfredo Morales, este sonho se aproxima da realidade.

As pesquisas deste engenheiro de telecomunicações de 34 anos centram-se em buscar padrões de comportamento das massas, entender o funcionamento da sociedade e, quando necessário, propor soluções preventivas frente a catástrofes ou incidentes violentos.

Para tanto, ele reúne informações de fontes com as quais os cientistas e os livros de Asimov nunca poderiam sonhar. Os comentários nas redes sociais, os padrões gerados pelas conexões móveis e o rastro de atividades na internet oferecem uma informação única sobre o comportamento individual. Cruzando esses dados, Alfredo detecta padrões que permitem deduzir o comportamento de grupos de pessoas.

Após sua formatura na Universidade Politécnica da Catalunha e doutorado na Politécnica de Madri (ambas na Espanha), Alfredo começou a trabalhar no Media Lab do Instituto Tecnológico de Massachusetts (EUA) e como professor associado no Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra (EUA). Suas raízes venezuelanas o levaram a interessar-se pela situação do seu país e a aplicar seus conhecimentos à situação social vivida nesta nação latino-americana.

E Alfredo lançou um projeto que o levou a analisar 16 milhões de tweets, de mais de três milhões de usuários, nos dias anteriores e posteriores à morte de Hugo Chávez. Sua pesquisa concluiu que o sentimento político dos habitantes de Caracas modificavam essencialmente de acordo com o local de residência, e que nem em áreas próximas havia comunicação entre os diferentes grupos de pessoas. Isso reflete o alto grau de polarização da cidade e o isolamento de certas comunidades se comparadas a outras.

Na mesma linha de pensamento, ele analisou a fragmentação social nos Estados Unidos através dos deslocamentos individuais, baseando-se em dados do Twitter e em conexões móveis. Esta informação permitiu o estabelecimento de 20 grupos sociais diferentes graças às interações ou a falta delas. Seu objetivo também é poder detectar escaladas de tensão entre grupos e evitar possíveis enfrentamentos.

Mas ele não apenas prevê choques sociais ou analisa a estrutura dos habitantes das cidades. Seu trabalho também serve para ajudar no caso de catástrofes naturais. E isso ficou demonstrado nas inundações que aconteceram há uma década no estado de Tabasco (México). Os dados sobre conexões móveis combinados com informações de satélites e da proteção civil serviram para determinar os movimentos das massas.

E essa é uma informação muito útil para organizar os serviços humanitários em tempo real. Graças a pesquisas como estas, Alfredo Morales foi reconhecido como um dos Inovadores menores de 35 América Latina 2018 pela revista MIT Technology Review em espanhol.

Um único tweet ou um único telefonema podem parecer irrelevantes, mas a soma de muitos deles permite traçar relações impensáveis há apenas duas décadas. Entender melhor o mundo, compreender o comportamento do ser humano e criar modelos de previsão mais precisos é possível graças ao trabalho de pessoas como Alfredo Morales.

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