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Quando a arte move massas: a revolução a pinceladas

Quando a arte move massas: a revolução a pinceladas

A arte não é um conceito inerte. Tem vida, outorgada por movimentos sociais que encontram na pintura, na escultura ou no grafite os aliados perfeitos para espalhar suas ideias. Através da expressão artística, reivindicam uma transformação da realidade, mais além da beleza. Isso porque a arte social é aquela que remove suas entranhas, que faz você pensar sobre a postura a ser tomada ou questionar uma filosofia que, até então, você considerava correta.


Esses movimentos sociais refletem a história de cada geração e encontram seus heróis nos artistas. Você vai poder corroborar essa afirmação com os exemplos mencionados a seguir, e que provam que uma pintura não é apenas um objeto estético. Porque quem tem a arte do seu lado tem poder.


O movimento feminista

O reconhecimento das mulheres nas seções tradicionalmente reservadas aos homens explodiu nos anos 1970, a partir de obras assinadas por elas. A pattern painting, ou pintura padrão/decorativa, lançou as bases de uma doutrina que posteriormente foi amparada por grupos como o mexicano Polvo de Gallina Negra ou o nova-iorquino Las Guerrilla Girls.

Enquanto isso, o surrealismo acolheu algumas das mulheres mais revolucionárias de seu tempo, como a pintora mexicana Frida Kahlo, um ícone que influenciou o mundo da moda e outras áreas. Com ela, Dorothea Tanning e Paula Modersohn, famosa por seu nu escandaloso que motivou a outras mulheres que continuam, ainda hoje, dando voz a milhões através de suas obras.

No entanto, a imersão do feminismo na arte faz sentido na atualidade? A resposta pode ser encontrada nas criações de algumas artistas, e é “sim”. Profissionais de uma arte emergente, como Petra Collins, que promove a normalidade da menstruação ou do pelo púbico; ou Ashley Armitage, que mostra em suas produções cheerleaders longe das convenções, com peitos pequenos e roupa interior nada sensual.

Recomendamos:

Um filme

A plataforma Netflix oferece em seu catálogo digital Frida (2002), longa metragem biográfico vencedor de um Oscar. Dirigido por Julie Taymor e estrelado por Salma Hayek, o filme se concentra no relacionamento da pintora com seu marido e sua reputação polêmica por sua opinião política.

Uma exposição

O Museu Reina Sofia de Madrid (Espanha) oferece todas as quartas-feiras, às 19h15 a oportunidade de desfrutar de uma interessante visita guiada à coleção “Feminismo. Una mirada feminista sobre las vanguardias”. A exposição questiona o papel e a visibilidade das mulheres na História da Arte a partir da análise das mulheres como produtoras, receptoras e sujeito-objeto da produção artística. A visita é gratuita.

Um site

Las Guerrilla Girls são um grupo de artistas feministas criado em Nova York em 1985, que utiliza o ativismo para promover a presença da mulher no mundo da arte. Seu nome é devido ao uso de táticas de guerrilha em todas suas ações. Vestidas com máscaras de gorilas, o coletivo usa o humor para denunciar a discriminação étnica e de gênero na política, na arte, no cinema e na cultura pop. Em guerrillagirls.com você pode seguir a atividade do grupo feminista nova-iorquino.


O movimento pacifista

O pacifismo tem estado presente em várias culturas desde o século 18. Em primeira instância, com figuras como Liev Tolstói ou Jean-Jacques Rousseau. Mais tarde, com Martin Luther King, Mahatma Gandhi e Nelson Mandela. Guerra do Vietnã, globalização, terrorismo... A arte sobre o conflito atinge os espectadores geração após geração, graças, basicamente, a dois nomes: Picasso e Bansky.

A sensibilidade do espanhol se refletiu na obra-prima El Guernica. Inspirada pelo bombardeio alemão à cidade do País Basco, em 1937, esta pintura representativa do cubismo mostra a dor através do cavalo agonizante, da mulher com o filho morto ou da casa em chamas. Não falta a pomba, símbolo da paz quebrada.

Por outro lado, os grafites de Banksy, o máximo expoente da arte de rua, expõem as ideias pacifistas mais atuais. Este artista, cuja identidade gera mil e uma suspeitas, é um crítico do nosso tempo e tem impactado desde a década de 1990 com murais como o da garota com os balões no conflito israelo-palestino ou o de outra menina com um balão em forma de coração em apoio às vítimas da Guerra da Síria.

Recomendamos:

Um documentário

Propomos dois trabalhos que oferecem ao espectador uma visão ampla do “fenômeno Bansky”. Por um lado, Saving Banksy conta várias histórias de colecionadores de arte que buscam preservar o legado do artista – da destruição de agentes externos. E, por outro, Exit Through the Gift Shop, uma obra cheia de controvérsias que representa um interessante jogo de espelhos sobre este artista de rua, um passeio entre verdade e mentiras. Ambos os filmes se tornaram títulos essenciais para entender esse movimento artístico.

Uma exposição

O quarto andar do Museu Reina Sofía acolhe a exposição “¿La guerra ha terminado? Arte en un mundo dividido (1945-1968)”, que engloba mais de mil obras percorrendo as transformações artísticas pós-guerra, enquanto começa a se formar a geopolítica internacional tensionada entre dois mundos antagônicos: Estados Unidos e União Soviética.


O movimento operário

A Revolução Industrial, em meados do século 18, é a moldura desse movimento que combate os direitos dos trabalhadores explorados. As pinturas realistas de Courbet e Millet, que representavam em suas telas as cenas camponesas do século 19, rodeadas de miséria, juntam-se à paleta de cores sombrias de Gustave Caillebotte, com Os Raspadores de Assoalho – trabalhadores ajoelhados e de peito nu apresentados como heróis do passado.

O movimento operário, temática especialmente abraçada pela fotografia (impossível não remeter ao Lunch atop a Skyscraper de Nova York, com a sombra publicitária em segundo plano), também é representado em paredes de milhares de cidades pelas mãos de artistas anônimos. Alguns usam técnicas operárias em suas obras, como o grafiteiro 3TTMan. Porque a raiva também é pintada.

Recomendamos:

Um filme

1900 (Novecento) se tornou uma referência clara. Estrelado por Robert de Niro e Gérard Depardieu, o filme de 1976 dirigido por Bernardo Bertolucci ilustra perfeitamente a luta de classes e narra com precisão as primeiras cinco décadas do século 20 na Itália. Suas mais de cinco horas de duração fazem com que seja difícil ver a projeção em uma única sessão.

Um livro

El movimiento de la fotografía obrera (1926-1939) se tornou uma obra difícil de encontrar, em que foram organizadas várias exposições na Espanha. Além disso, recomendamos um documentário emitido em 2011 sobre a exposição Una luz dura, sin compasión, da qual nasceu o livro citado.


O movimento ecologista

A convivência em harmonia entre homem e natureza se tornou uma das obsessões da arte contemporânea, impulsionada pela preocupação real de uma massa que observa a degradação do planeta. Trata-se de uma ideologia relativamente recente, pelo menos na intensidade com que se manifesta hoje em dia embora possamos encontrar antecedentes históricos na importância que adquiriram as paisagens na pintura impressionista de Monet.

Nesse sentido, é preciso citar o movimento Land Art, estabelecido no início dos anos 1970 graças à polêmica escultura Spiral Jetty, de Robert Smithson. Sua construção implicou certa controvérsia, porque, longe das boas intenções e da beleza da obra, a questão era se danificava o lugar onde foi instalada. Entre as propostas ecologistas recentemente criadas, é possível encontrar 7.000 carvalhos, um projeto no qual o artista Joseph Beuys propôs a reflorestamento de áreas danificadas através da expressão artística; ou The Rythms of Life, uma cadeia de esculturas que incumbe todo o planeta. O culpado? Andrew Rogers.

Recomendamos:

Um museu

A Fundação NMAC Montenmedio Arte Contemporáneo, em Cádis, é um espaço único na Espanha, onde o diálogo entre a arte contemporânea e a natureza é estabelecido em perfeita harmonia.

Um livro

Land Art (Serie menor) oferece ao leitor uma visão deste movimento artístico que surgiu no final dos anos 1970 com o objetivo de levar o trabalho artístico aos espaços naturais.