The Daily Prosper
Pílulas matemáticas que melhoram nossa saúde

A matemática que ajuda a melhorar sua saúde

A matemática apoia a pesquisa médica, procurando ferramentas para estudar doenças, controlar sua propagação e desenvolver tratamentos. Também nos ajuda a viver melhor e levar uma vida mais saudável.


A matemática, ciência abstrata e temida por tanta gente, aparece nos lugares mais inesperados. Basta dar uma olhada ao nosso redor e ver a infinidade de processos e aplicações práticas nos quais ela tem cabida.

Se você não gostava das equações e de estatística no colégio, é possível que passe a apreciar melhor tudo isso ao saber que são benéficas para nossa saúde e nos ajudam a viver melhor: antecipam as doenças, preveem suas consequências e ajudam na elaboração de medicamentos e tratamentos.

Por isso, muita gente garante que a matemática é o futuro da medicina, e aqui vamos contar alguns dos usos que já são realidade no âmbito sanitário e da saúde.
 

Uma equação diferencial para salvar todo mundo

Estima-se que 71 milhões de pessoas padecem de hepatite C, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. Essa doença, que literalmente significa inflamação do fígado, é causada por um vírus transmitido pelo sangue e pode levar a riscos graves, como cirrose ou câncer de fígado.

A taxa de cura depende de muitos fatores, mas nos últimos anos melhorou bastante e hoje chega a 95% graças ao aprimoramento dos medicamentos. E entre as responsáveis por tal dado esperançador está uma equação.

Os modelos matemáticos e as equações diferenciais ajudaram os criadores do fármaco revolucionário a fazerem suas descobertas e depurarem a investigação. A biologia molecular e a medicina tomaram a matemática como base para analisar o comportamento do vírus quando administramos medicamento ao doente. Deixando de lado as controvérsias por conta do preço do tratamento, a observação matemática do sistema imunológico do paciente pavimentou o caminho à cura.
 

Tome sua vacina! Não seja o propagador de uma epidemia

O cinema não cansa de mostrar que, no momento menos esperado, um brote epidêmico pode colapsar o mundo… podendo chegar ao nível de um apocalipse repleto de zumbis. Porém, em cenários mais cotidianos, a realidade é que, frente a uma epidemia, não são necessárias apenas as medidas sanitárias pertinentes, mas também uma avaliação das probabilidades de sua propagação.

Dessa maneira, calcula-se a porcentagem de gente que deve se vacinar para evitar uma epidemia mundial. No caso do sarampo, por exemplo, esse número deve chegar a aproximadamente 92% da população para que o restante das pessoas não esteja em risco, o que conhecemos como imunidade de rebanho.

Como contam os matemáticos Clara Grima e Enrique F. Borja em seu livro Las matemáticas vigilan tu salud [A matemática vigia a sua saúde], essa disciplina é uma potente ferramenta que permite entender a propagação de uma doença e como freá-la. As equações diferenciais, a teoria dos grafos e a teoria dos jogos são algumas das manifestações matemáticas que explicam como uma doença infecciosa surge. E você já sabe: a matemática também afirma que ninguém deve deixar de se vacinar.
 

Modelos matemáticos contra o câncer

Não existe uma equação mágica capaz de curar o câncer, como já foi anunciado em outras ocasiões, mas estamos fazendo muitos avanços nessa direção. Os modelos matemáticos (ou seja, representar em linguagem matemática processos do mundo real) podem ser utilizados para simular como um tumor cresce e que efeito uma determinada terapia gera sobre um paciente, como já é feito no Laboratório de Oncologia Matemática da Universidade de Castilla-La Mancha, na Espanha.

E isso é algo extremamente complexo por conta das centenas de tipos diferentes de câncer que existem e que esses especialistas já utilizam para pesquisar o glioblastoma e a metástase cerebral. Com suas previsões, um neurocirurgião pode, por exemplo, decidir sobre extirpar mais ou menos massa tumoral.

Na Universidade de Cádiz (Espanha) também tentam lutar contra o câncer infantil utilizando a matemática. O projeto Recaída 0 pretende conseguir que a porcentagem de crianças que superam a leucemia linfoide aguda seja de 100%, contra os atuais 80%. E como o fazem? Com um modelo matemático alimentado por dados que permitem identificar novos marcadores biológicos com os quais é possível redefinir os grupos de risco entre os doentes, prever as possíveis recaídas e conseguir a cura completa.
 

Quem tem dados, tem um tesouro

Como acontece nos modelos anteriores, dispor de informação sobre os pacientes e dados anteriores da doença tem um valor incomensurável. Os pesquisadores da Universidade de Córdoba e do Hospital Reina Sofía, que fica na mesma cidade espanhola, sabem muito bem disso, e com tal informação pretendem responder uma pergunta crucial da medicina: qual é a compatibilidade entre o doador e o receptor de um órgão?

Com seu novo modelo, eles elevaram de 80% a 92% a probabilidade de êxito nos transplantes de fígado. Para tanto, utilizaram inteligência artificial, redes neuronais e computação, e hoje, graças a uma análise cruzada de todos os dados, um computador é capaz de oferecer um órgão doado ao receptor que melhor o aceitará.

O projeto Sanitas Data Salud também pretende fazer uso do big data e quer dar impulso à investigação em saúde baseada em dados para diagnosticar o estado da saúde na Espanha, detectar tendências e elaborar modelos de previsões que contribuam ao avanço da medicina. Seu primeiro estudo estabeleceu uma correlação entre as visitas a emergências por problemas respiratórios e a contaminação atmosférica em Madri (na Espanha), uma das cidades europeias que mais supera os níveis estabelecidos.
 

Farmácia, com f de fórmula

Quando nosso médico nos dá uma receita, também está utilizando cálculos matemáticos. Por trás das doses recomendadas, existem estudos que determinam a quantidade de medicamento que uma determinada pessoa deve tomar. Para fazer tal cálculo, são utilizadas fórmulas matemáticas específicas, proporções e regras de três, que às vezes dependem do peso do paciente e de outros fatores, como sexo e idade.

Antes que o medicamento chegue à farmácia, a matemática também esteve presente na sua elaboração. Nos laboratórios, são projetadas experiências com base em critérios estatísticos, e são aplicadas técnicas de computação e processamento de dados.

Com tais análises clínicas, são calculadas as doses dos componentes que devem ser incluídas em cada fármaco, e também se estuda como ele evolui no organismo, conseguem detectar pacientes em potencial e são obtidos os intervalos de confiança entre os quais os resultados dos ensaios devem estar para que o medicamento seja comercializado. Se você quiser ser um grande farmacêutico, não falte as aulas de matemática.
 

Para estar saudável, pratique esporte (mental)

Porém, o ideal para que tudo o que falamos anteriormente nos preocupe o menos possível é levar um estilo de vida saudável e equilibrado, no qual primem os esportes, os bons alimentos e a matemática! São várias as disciplinas nas quais a matemática está presente e muitos os conselhos matemáticos que podem aprimorar suas habilidades esportivas. Existe, por exemplo, uma fórmula matemática que estima a velocidade na qual devemos correr e quantos carboidratos devemos ingerir para não desmaiarmos no meio de uma maratona.

A saúde é um conjunto de coisas, e podemos (e devemos) alimentar nosso cérebro com matemática. O treinamento cerebral ajuda a atrasar problemas cognitivos associados ao envelhecimento, e um exercício perfeito para consegui-lo é o cálculo mental. Deixe de lado a calculadora e revise suas contas do mês em voz alta. Outra maneira de manter nossos neurônios em forma é fazendo jogos matemáticos, como os sudokus ou os quadrados mágicos.

Em resumo, a matemática não envolve apenas operações e cálculos. Unida a outras disciplinas, ela impulsiona notáveis avanços que repercutem em benefício de todos; também da nossa saúde. Da próxima vez que escutar alguém dizendo que odeia matemática, lembre-se que suas aplicações em nosso cotidiano são mais imprescindíveis do que parecem. Porém, se ainda assim a matemática continuar quebrando sua cabeça, vá à farmácia e peça uma boa pílula matemática. Tomar uma ao ano, não causa dano.

Por Patricia Ruiz Guevara