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3 reflexões sobre o futuro da neurociência e um cenário de ficção científica

3 reflexões sobre o futuro da neurociência e um cenário de ficção científica

Durante a segunda metade do século XIX, um homem chamado Leborge foi admitido no hospital de Bicetre, em Paris. Sabemos que ele perdeu seu discurso gradualmente. Entendia os outros, mas quando tentava falar, só podia dizer tan. Essa sílaba enigmática era sua resposta a qualquer pergunta. A história é lembrada por este nome: Tan.


Quando ele morreu, o médico e anatomista Paul Broca apresentou os resultados da autópsia perante a Sociedade de Antropologia de Paris: havia uma lesão cerebral no terceiro giro do hemisfério esquerdo. A lesão era a responsável pela perda da linguagem? O anatomista rejeitou a conclusão de seu próprio estudo, porque acreditava no princípio da simetria biológica, que parecia ser uma evidência de ordem, harmonia e perfeição da natureza.

Após investigar outros casos como o de Tan, Broca se convenceu de que o princípio da simetria era um pré-conceito. Ele aprendeu que as observações diretas do mundo muitas vezes contradizem a expectativa de uma ordem cósmica desenhada à imagem e semelhança de nossas crenças.

 

"se o cérebro fosse tão simples que pudéssemos entendê-lo, seríamos tão simples que não conseguiríamos entendê-lo" Santiago Genovés

1. Compreender o que nos faz humanos

Broca foi um pioneiro na descoberta da conexão intrínseca entre as capacidades mentais e a realidade viva da matéria orgânica: em particular, do sistema nervoso. Durante um século e meio após a publicação de Tan, o trabalho da neurociência descobriu intrincadas redes constituídas por 100 bilhões de células neurais, que processam a informação do mundo todos os dias, dentro de cada ser humano.

No entanto, os códigos cerebrais não foram completamente decifrados isto é, como nossas redes neurais geram inúmeras variedades de comportamento, da dança ao boxe, do discurso político à redação de tratados filosóficos... A consciência e o livre arbítrio são fronteiras do conhecimento científico. O antropólogo Santiago Genovés disse que “se o cérebro fosse tão simples que pudéssemos entendê-lo, seríamos tão simples que não conseguiríamos entendê-lo”.

 

2. O teste do Blade Runner

Um filme clássico aborda, à sua maneira, os problemas centrais da neurociência: Blade Runner (1982), de Ridley Scott. Em uma das primeiras cenas, um detetive submete uma mulher a um teste com perguntas que exploram situações desconfortáveis. “Você está lendo uma revista. Você encontra uma imagem de uma mulher nua do tamanho de uma página. Você mostra a foto para o seu marido. Ele gosta tanto que a pendura no quarto.”

Há diferentes respostas para a pergunta, mas a mulher responde: “Eu não permitiria isso. Eu deveria ser suficiente para ele”. Durante a entrevista, o detetive analisa o diâmetro da pupila da mulher e, no final, conclui que ela não é humana trata-se de uma réplica tecnológica criada pela engenharia genética.

Embora seja ficção científica, Blade Runner situa problemas atuais no ramo cognitivo da neurociência, dedicado a estudar a relação entre o cérebro e a mente. Conhecer a dimensão subjetiva da mente, ou seja, essa parte privada da experiência a que apenas o sujeito tem acesso, é um dos desafios neurocientíficos. Como criamos e experimentamos pensamentos, sentimentos, intuições, imagens mentais, acessíveis a cada indivíduo, mas inacessíveis aos outros? Como o nosso cérebro realiza as operações surpreendentes que o tornam possível?

Em Blade Runner se observam dois aspectos da neurociência cognitiva: por um lado, o uso de recursos tecnológicos. Na pesquisa contemporânea, a eletrofisiologia é usada para conhecer a atividade elétrica do cérebro, quantos milissegundos um sujeito leva para perceber, reconhecer, acessar o significado de um estímulo e gerar uma resposta inteligente.

As tecnologias nuclear (tomografia por emissão de pósitrons) e magnética (imagem por ressonância magnética) são usadas para gerar imagens fotográficas que nos permitem visualizar as mudanças metabólicas e sanguíneas que refletem a atividade neuronal, formando assim mapas cerebrais associados a eventos subjetivos (como os sentimentos gerados, por exemplo, através da música ou da poesia).

 

3. A tecnologia pode mudar nossa subjetividade?

O detetive de Blade Runner investiga, por meio de mudanças pupilares, as emoções que permitem distinguir as qualidades estritamente humanas de uma pessoa. Do ponto de vista da biologia cerebral, o que nos faz estritamente humanos? A ciência contemporânea investiga o jogo das emoções durante a tomada de decisões sobre questões que são, para bem ou para mal, muito humanas. Por exemplo, os autoenganos que nos levam a tomar decisões econômicas ruins e a nos endividar permanentemente ou o ressentimento social que leva uma comunidade a escolher um candidato presidencial racista e sexista.

Em que medida penetramos a subjetividade através de ferramentas tecnológicas? As pesquisas atuais procuram desenvolver, por exemplo, dispositivos de telepatia sintética ou aparelhos para decifrar nossos sonhos enquanto dormimos. Os cenários da ficção e da ciência estão se aproximando. Em Blade Runner, o realismo psicológico dos humanoides criados pela engenharia genética é conseguido através de “implantes de memórias” tirados de outras pessoas.

Embora isso não tenha sido feito em seres humanos, existem experiências bem-sucedidas em que memórias falsas foram criadas em animais. Um medo habitual de muitos críticos é supor se esses avanços levarão a um maior controle social ou à exploração comercial dos segredos da mente humana.

 

4. Uma ciência a serviço das pessoas

Por outro lado, as neurociências geraram revoluções criativas em um assunto delicado: o diagnóstico e tratamento das doenças neuropsiquiátricas. Um artigo publicado na revista médica Lancet mostrou que 14% da deficiência no mundo é devido a condições neuropsiquiátricas, como a depressão, a doença de Alzheimer, a epilepsia, o autismo ou a esquizofrenia.

Esses problemas significam um imenso fardo econômico para as sociedades e são fontes resistentes de sofrimento às palavras de encorajamento ou às boas intenções. É necessário um conhecimento preciso da neurociência para gerar uma estratégia eficiente. Os formidáveis desafios do sofrimento patológico exigem a investigação exaustiva do sistema nervoso humano, mas também o entendimento sociológico, antropológico, econômico, bem como a compreensão crítica e empática que surge das artes e das humanidades.

O futuro da neurociência tem uma alternativa: tratar o ser humano como um produto da engenharia genética ou informática, uma biomassa cujas leis de comportamento podem ser decifradas para se tornar um autômato disponível para a exploração econômica ou o controle político. Ou, pelo contrário, a ciência pode tratar o indivíduo com um ser vivo, com sentimentos morais, estéticos e sociais, capaz de gerar uma ação coletiva organizada para melhorar as condições de desigualdade e opressão nas comunidades.

Em ambos os casos, a ciência neurológica exerce seu poder, mas faz isso de maneira diferente. Uma ciência ao serviço do enriquecimento cultural requer a capacidade de dialogar com outras disciplinas e a vontade de reafirmar seu compromisso ético.