HED: Problemas reais, soluções criativas


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A América Latina precisa de mais mentes engenhosas se as fintechs querem impulsionar o desenvolvimento econômico da região.


A necessidade é a mãe da invenção, disse Platão. Na África, onde as agências bancárias e os caixas eletrônicos são geralmente mais raros do que um rinoceronte branco, esse certamente é o caso. Quando as pessoas não tinham uma maneira confiável e econômica de enviar dinheiro, elas começaram a negociar créditos pay-as-you-go (ou seja, pague quando utilizar) de telefone celular no início dos anos 2000. A Safaricom, subsidiária queniana da Vodafone, adaptou a ideia e apresentou a primeira plataforma de transações móveis na África, em 2007. O resto é história.

Hoje, mais de 40% dos adultos do Gabão, Gana, Quênia, Namíbia, Tanzânia, Uganda e Zimbábue usam frequentemente os serviços de transferência de dinheiro baseados em dispositivos móveis. Com cerca de 227 milhões de contas ativas, existem mais contas MMO na região subsaariana do que contas bancárias tradicionais.

Na América Latina, a tecnologia está tomando um rumo diferente para chegar aos under-banked (aquelas pessoas com acesso limitado aos serviços bancários). As regras do dinheiro móvel foram introduzidas pela primeira vez na Bolívia em 2011. Brasil, Peru e outros países seguiram a corrente. Mas a aceitação tem sido menos impressionante do que o esperado. A América Latina tem apenas 33 milhões de contas MMO registradas, aproximadamente o mesmo que a África Central – que conta com um quarto da população latino-americana.

Ainda assim, os empresários fintech da América Latina estão apostando que o smartphone vai permitir dar o salto à tecnologia sem conexão à internet. Isso deve acabar impulsionando o comércio eletrônico e a economia em geral.

Os latino-americanos adoram seus aparelhos celulares. Já são 350 milhões de usuários de internet móvel, mais do que nos Estados Unidos. As taxas de adoção de smartphones na região vão atingir 71% até 2020, antes da média global.

A GSMA Intelligence calcula que o “ecossistema” móvel incluindo investimentos diretos, empregos, ganhos de produtividade e criação de empregos e serviços indiretos já representa 5% do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina. Com brasileiros, argentinos e mexicanos dedicando mais de três horas e meia por dia ao uso de seus celulares para acessar a internet, o apetite por novos serviços está crescendo de maneira rápida.

As soluções portáteis on-line de problemas bancários cotidianos de comércios varejistas e pequenas empresas estão se multiplicando. De acordo com a Finnovista, que ajuda os inovadores latino-americanos a estabelecer seus negócios, a área mais ativa da atividade fintech é em serviços de pagamento e empréstimos. É provável que ambos se transformem nos “gatekeepers” de um grupo mais amplo de serviços financeiros digitais no futuro. Os quatro Cs cash (dinheiro), commerce (comércio), chargebacks (reembolsos) e credit (crédito) são o motivo disso.

Dinheiro

Quando Héctor Cárdenas e dois amigos universitários do Canadá se mudaram para o México, para criar sites para empresas que desejavam vender on-line, eles se chocaram com uma parede dura: 82% dos mexicanos não têm cartões de crédito, tornando as vendas on-line praticamente impossível.

A infraestrutura de pagamento com cartão de crédito do país está bloqueando e impedindo o comércio eletrônico. O México podia ser um dos maiores mercados da região para empresas como MercadoLivre, eBay e Amazon mas não é. A unidade mexicana está perdendo dinheiro, com receitas totais em torno de um décimo das do Brasil e apenas à frente da Venezuela.

A Conekta foi fundada para criar sites de comércio eletrônico para comerciantes. No entanto, quando descobriram que as transações on-line não funcionam, eles se centraram em consertar o sistema. “Tivemos de construir algo para corrigir os pagamentos. Tinha de ser um pouco mais vertical. Tinha de ser multicanal, com cartões de crédito e débito, planos mensais de pagamento, dinheiro e transferências bancárias”, explica Cárdenas.

Ironicamente, uma cadeia de lojas de conveniência física tem sido a chave para o sucesso da Conekta.

A OXXO é a maior rede comercial do México, com 16 mil lojas. Os usuários da Conekta podem encomendar mercadorias a qualquer fornecedor deste e-tailer e, em seguida, visitar pessoalmente a OXXO para pagar em dinheiro, se preferirem. Um contato rápido do código de barras no celular conecta o pagamento e a compra. Os fornecedores recebem a notificação do pagamento em tempo real para que o produto possa ser enviado o antes possível e com toda a garantia necessária.

A OXXO está tão impressionada com a Conekta que se tornou uma investidora estratégica em sua última rodada de financiamento, no final de 2016.

Comércio

Mesmo as transações presenciais com cartão continuam sendo complicadas. Os titulares não sabem se uma loja possui ou não um terminal de ponto de venda (PDV). Embora os mexicanos tenham 170 milhões de cartões de débito e crédito, existem apenas 900 mil máquinas de PDV em todo o país.

“Há 11 milhões de empresas que podem receber pagamentos com cartões e apenas 500 mil estão aptas. As pessoas não têm onde usar seus cartões, exceto no dia do pagamento, quando os caixas eletrônicos ficam sem dinheiro porque todo mundo vai retirar seu salário”, explica Adolfo Babatz, da Clip, um comerciante adquirente.

Manipular dinheiro é arriscado, sujo e supõe uma despesa para os negócios. Os comerciantes prefeririam se livrar desse inconveniente, mas são prejudicados pelo mercado único de cartões do México. Em outros lugares, Visa e MasterCard definem as regras sobre como os cartões são emitidos e como as transações são feitas. No caso do México é diferente: os bancos ditam as normas para os emissores de cartões, comerciantes adquirentes e processadores de pagamento.

Como consequência disso, os terminais de PDV são caros de instalar, alugar e utilizar. Se alguém puder projetar um sistema melhor e mais acessível, os comerciantes agradecem.

“Não tem a ver com sermos bons no que fazemos, é que o que está lá fora é muito ruim”, defende Babatz.

O leitor de cartão da Clip é barato e se conecta a um smartphone. Embora as comissões de transações sejam um pouco mais altas do que se estas fossem feitas através de terminais fornecidos pelo banco, Babatz diz que sua base de comerciantes menores está feliz com uma estrutura de taxas simples que se adequa a baixos volumes e baixos valores de transação.

“95% de nossos novos comerciantes nunca tinha aceitado cartões antes. Eles têm de ser tão simples como o WhatsApp ou o Google”, insiste.

Reembolsos

A Conekta e a Clip estão crescendo muito rápido. A adoção poderia ser ainda mais veloz se não fossem as regras arcaicas de reembolso que o México tem.

As normas referentes aos reembolsos (quando bens ou serviços são contestados pelo cliente) são sempre favoráveis ao titular do cartão. Se uma empresa quer contra-argumentar um reembolso, ele deve produzir um recibo assinado, algo que os e-tailers (e muitas lojas físicas) não podem fornecer. Mesmo a assinatura da prova de entrega é insuficiente, diz Héctor Cárdenas, da Conekta.

Os usuários maliciosos sabem como tirar proveito das regras. Os titulares talvez não tenham a intenção de pagar pelo que compram. Os ladrões adoram usar cartões roubados, sabendo que os clientes incorretamente cobrados podem recuperar seu dinheiro depois. Não surpreende que os processadores de pagamento sejam muito cautelosos as compras on-line são muitas vezes bloqueadas para evitar o risco. 

Os terminais de PDV da Instore agora contam com a tecnologia de chip e pin, de modo que o uso do cartão roubado pode ser contido de modo mais fácil. A Clip também envia aos clientes um código único para validar cada operação.

Criar umas regras de reembolso mais equilibradas seria um impulso enorme para o comércio eletrônico do México e pode encorajar mais pessoas que ainda não são usuárias a adquirir um cartão.

Crédito

A obtenção de crédito em toda a América Latina é um desafio, tanto para particulares quanto para micro, pequenas e médias empresas (MPME) da região. Poucos têm um histórico de crédito suficiente para os procedimentos tradicionais de subscrição. As taxas de juros são elevadas de acordo com os padrões internacionais.

A falta de acesso ao crédito significa que milhões não podem investir em um novo empreendimento e que muitas empresas existentes não podem ampliar e crescer.

A Kueski é um dos novos credores on-line que surgiram no continente. Como costuma ser o caso, a inspiração conta com uma origem usual. Adalberto Flores trabalhou na Ooyala, uma plataforma de vídeos on-line. Quando um cliente corporativo quis criar um serviço de vídeo over-the-top, uma espécie de Netflix mexicano, a equipe comandada por Flores se chocou com uma barreira conhecida: pouca gente tinha cartões de pagamento para pagar as subscrições ou históricos de crédito para ampliar o crédito.

“Nós usamos nossos técnicos e nossas técnicas de aprendizagem de máquinas para resolver o problema de um país sem acesso ao capital”, conta Flores.

A implementação dos primeiros microcréditos da Kueski teria causado alvoroço nos departamentos tradicionais de risco. Com o financiamento do capital de risco garantido, Flores e Leonardo de la Cerda ofereceram cerca de 2 mil pequenos empréstimos de mais de 60 a 90 dias para estabelecer padrões de dados, mas com processos de risco rudimentares.

“Dissemos aos nossos investidores iniciais que perderíamos dinheiro. Perdemos mais do que pensávamos”, admite.

O nível de “fraude difícil”, onde as identidades são roubadas, foi maior do que o esperado. Isso também ocorreu com os níveis de “fraude suave”, onde os clientes têm pouca intenção de pagar seus empréstimos. A falta de números de segurança social e de uma infraestrutura de verificação de endereço não ajudou.

No entanto, as lições aprendidas com os primeiros 2 mil empréstimos foram suficientes para estabelecer um quadro de subscrição.

Os técnicos de dados da Kueski foram experimentando novos algoritmos a partir de uma montanha cada vez maior de dados de clientes. A equipe evita a identificação religiosa ou étnica do perfis de risco, o que poderia ser considerado antiético. A Kueski já está deixando de “raspar” dados nas redes sociais justo em um momento em que os agentes tradicionais estão investigando o Facebook e o Twitter para obter pistas sobre a confiabilidade do cliente.

Todo mundo da empresa está convidado a participar da competição regular de teste de dados da Kueski. Qualquer membro da equipe pode sugerir um tema. Infelizmente, seu signo horóscopo revela pouco sobre sua vontade de pagar. E não se preocupe se você nasceu em lua cheia – os cientistas de dados da Kueski não encontraram um vínculo que sugira que você não pagará seu empréstimo. Os lobisomens podem ficar tranquilos.

O empréstimo on-line para negócios também está ganhando terreno. A América Latina abriga 52 milhões de MPME. Mais de 70% dessas empresas são classificadas como “informais”, portanto poucas podem obter cheques especiais ou empréstimos. Uma série de credores peer-to-peer on-line, incluindo a Afluenta (Argentina) e a Konfio (Brasil), usam algoritmos patenteados para avaliar os candidatos das MPME.

Outros agentes podem surgir em breve uma série de fintechs oferecem ferramentas de gerenciamento de fluxo de caixa e de negócios que podem ser usadas para construir sistemas alternativos de avaliação.

Os governos também estão ajudando a reduzir a lacuna do crédito. Argentina, Brasil, Chile, Equador e México agora exigem que todas as empresas registrem as faturas eletronicamente nas autoridades fiscais. Essas faturas eletrônicas estão gerando um conjunto enorme de dados de transações que vão ajudar toda a indústria a tomar melhores decisões de empréstimo. É a era dos cientistas de dados.

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